Simples Nacional ou Lucro Presumido: qual regime é melhor para médicos?
- agenciaaligator
- 6 de jan.
- 9 min de leitura

Você está prestes a abrir seu CNPJ ou já tem um há algum tempo. O contador pergunta (ou deveria perguntar): "Simples Nacional ou Lucro Presumido?".
Se você é como a maioria dos médicos, não tem a menor ideia do que isso realmente significa na prática. E provavelmente vai escolher baseado em:
"Todo mundo usa Simples, deve ser melhor." "Meu colega usa Lucro Presumido e disse que economiza muito." "O contador falou que Simples é mais fácil."
O problema? Essa decisão pode significar diferença de R$ 30 mil a R$ 70 mil por ano no seu bolso. Escolher errado é como trabalhar de graça um ou dois meses todo ano apenas para pagar impostos que você não deveria.
Pior ainda: muitos médicos descobrem anos depois que estão no regime errado. E ficar mudando não é simples — só pode trocar uma vez por ano, com opção em janeiro. Se você percebe em março que errou, precisa amargar mais 10 meses pagando mais do que deveria.
Este artigo não vai te dar a resposta pronta de "use X". Porque não existe resposta única. O regime ideal depende de variáveis específicas da sua situação: faturamento, custos, estrutura, especialidade, se tem funcionários, até seu planejamento de aposentadoria.
Vamos dissecar os dois regimes, mostrar em que situações cada um é melhor, apresentar simulações reais e te dar ferramentas para tomar decisão informada — ou pelo menos saber as perguntas certas para fazer ao seu contador.
O que realmente é cada regime (além do jargão técnico)
Simples Nacional: o regime "unificado"
Imagine que todos os impostos federais, estaduais e municipais são jogados em um liquidificador e você paga tudo em um único boleto mensal (DAS - Documento de Arrecadação do Simples).
A alíquota é progressiva: quanto mais você fatura, maior o percentual. Funciona em faixas — parecido com o Imposto de Renda de pessoa física.
Para médicos, existem dois "anexos" possíveis dentro do Simples:
Anexo III (o bom): Alíquota inicial de 6% na primeira faixa (até R$ 180 mil de faturamento nos últimos 12 meses). Vai aumentando conforme faturamento cresce, podendo chegar a 19,25% na última faixa.
Anexo V (o problemático): Alíquota inicial de 15,5% na primeira faixa. Pode chegar a 33% nas faixas mais altas.
O que determina em qual anexo você cai? O Fator R.
Fator R = (Folha de pagamento últimos 12 meses) ÷ (Receita bruta últimos 12 meses)
Se Fator R ≥ 28%: você fica no Anexo III Se Fator R < 28%: você cai no Anexo V
"Folha de pagamento" inclui: salários de funcionários + pró-labore dos sócios + encargos.
Lucro Presumido: o regime "da presunção"
O governo presume que 32% do seu faturamento é lucro e cobra impostos sobre essa presunção — independentemente de quanto você realmente lucrou.
Os tributos são calculados separadamente:
Impostos federais (sobre os 32% presumidos):
IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica): 15% + adicional de 10% sobre o que exceder R$ 20 mil/mês
CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido): 9%
PIS: 0,65% sobre faturamento
COFINS: 3% sobre faturamento
Imposto municipal:
ISS: geralmente isento para consultas médicas (Lei Complementar 116/2003)
Alíquota efetiva total fica em torno de 13,33% do faturamento para a maioria dos médicos (considerando isenção de ISS).
Diferente do Simples, a alíquota não aumenta conforme faturamento cresce. É fixa (com exceção do adicional de IRPJ).
Quando o Simples Nacional é melhor opção
Cenário 1: Faturamento baixo a médio com planejamento de Fator R
Perfil: Médico faturando entre R$ 10 mil e R$ 40 mil por mês, consegue manter folha de pagamento (pró-labore + funcionários) acima de 28% da receita.
Exemplo prático:
Dermatologista fatura R$ 25 mil/mês (R$ 300 mil/ano). Estabelece pró-labore de R$ 7 mil/mês. Fator R: (R$ 84 mil ÷ R$ 300 mil) = 28% Fica no Anexo III, alíquota média 9%.
Impostos anuais no Simples: R$ 27.000
Impostos anuais no Lucro Presumido: R$ 39.990
Economia no Simples: R$ 12.990/ano
Cenário 2: Médico no início da carreira, faturamento crescente
Perfil: Recém-formado ou recém-especializado, faturamento ainda está crescendo, projeção de aumento nos próximos anos.
No Simples, você começa pagando alíquota baixa (6% a 9%) e só vai aumentando conforme faturamento cresce. Isso dá fôlego financeiro no começo.
No Lucro Presumido, você já entra com alíquota de 13,33% desde o primeiro real faturado — o que pode apertar o fluxo de caixa inicial.
Cenário 3: Médico que valoriza simplicidade operacional
Perfil: Não quer (ou não consegue) lidar com múltiplas guias, declarações complexas, controle rigoroso de prazos diferentes.
Simples é literalmente mais simples:
Um único boleto mensal (DAS)
Declaração anual única (DEFIS)
Menos obrigações acessórias
Lucro Presumido exige:
Múltiplas guias (DARF de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS)
Prazos diferentes para cada tributo
Mais declarações (DCTF, ECD, ECF)
Se você não tem estrutura administrativa ou paciência para gestão tributária complexa, Simples pode compensar mesmo que seja um pouco mais caro.
Quando o Simples deixa de ser vantajoso
A partir de determinado faturamento, a alíquota progressiva do Simples começa a ficar muito alta.
Ponto de atenção: Acima de R$ 50 mil/mês (R$ 600 mil/ano), simule cuidadosamente. Pode ser hora de migrar para Lucro Presumido.
Armadilha mortal: Cair no Anexo V por não planejar Fator R adequadamente. Aí o Simples vira o pior regime possível — alíquota de 15,5% a 33% quando você poderia estar pagando 13,33% no Lucro Presumido.
Quando o Lucro Presumido é melhor opção
Cenário 1: Faturamento médio a alto (acima de R$ 40-50 mil/mês)
Perfil: Médico estabelecido, consultório funcionando bem, faturamento consistente acima de R$ 50 mil mensais.
Exemplo prático:
Cirurgião cardiovascular fatura R$ 80 mil/mês (R$ 960 mil/ano).
Simples (Anexo III otimizado): Alíquota média 14% Impostos anuais: R$ 134.400
Lucro Presumido: Alíquota 13,33% Impostos anuais: R$ 127.968
Economia no Lucro Presumido: R$ 6.432/ano
E isso considerando Simples Anexo III (o melhor cenário). Se cair no Anexo V, diferença seria devastadora.
Cenário 2: Margem de lucro muito alta
Perfil: Médico com poucos custos operacionais. Atende em consultório alugado simples, sem equipe grande, sem equipamentos caros.
No Lucro Presumido, governo presume que apenas 32% do faturamento é lucro. Se seu lucro real é 60%, 70% ou mais, você está pagando imposto sobre base menor que a realidade — o que é vantajoso.
No Simples, você paga sobre o faturamento total, independentemente da margem.
Exemplo:
Psiquiatra fatura R$ 30 mil/mês. Custos operacionais: R$ 3 mil/mês (aluguel pequeno, internet, material de escritório). Lucro real: R$ 27 mil/mês = 90% de margem.
Lucro Presumido: Tributa sobre presunção de 32% (R$ 9.600). Você lucra 90% mas paga imposto como se lucrasse 32%.
Simples: Tributa sobre R$ 30 mil inteiros.
Neste caso, Lucro Presumido é muito mais vantajoso.
Cenário 3: Impossibilidade de manter Fator R adequado
Perfil: Médico que atende sozinho, sem funcionários, não consegue (ou não quer) estabelecer pró-labore alto o suficiente para manter Fator R acima de 28%.
Se você inevitavelmente vai cair no Anexo V do Simples, melhor nem entrar nele. Lucro Presumido com 13,33% é infinitamente melhor que Simples Anexo V com 15,5% a 33%.
Cenário 4: Planejamento de distribuição de lucros isenta
No Lucro Presumido, você pode distribuir lucros isentos de IR de forma mais robusta e documentada.
Estratégia comum: Pró-labore baixo (R$ 3 mil a R$ 5 mil) + distribuição mensal de lucros isenta (R$ 15 mil a R$ 30 mil).
No Simples, embora também seja possível, a estrutura contábil é um pouco mais limitada para isso.
Cenário 5: Faturamento acima do limite do Simples
Simples tem teto de R$ 4,8 milhões/ano (R$ 400 mil/mês em média).
Se você ultrapassa isso, é desenquadrado automaticamente e precisa ir para Lucro Presumido ou Lucro Real de qualquer forma.
As variáveis que você precisa considerar
1. Seu faturamento mensal médio
Faça projeção realista:
Quanto você espera faturar por mês?
Vai crescer nos próximos anos?
Há sazonalidade (meses melhores/piores)?
Regra geral simplificada: Até R$ 30-40 mil/mês: Simples tende a ser melhor R$ 40-70 mil/mês: Zona cinzenta, precisa simular Acima de R$ 70 mil/mês: Lucro Presumido geralmente melhor
Mas isso é APENAS ponto de partida. Outras variáveis podem inverter completamente.
2. Sua estrutura de custos
Custos baixos (até 20% do faturamento): Lucro Presumido tende a ser melhor (presunção de 32% lucro quando você lucra 80%).
Custos médios (20% a 40%): Depende de outras variáveis.
Custos altos (acima de 40%): Simples pode ser melhor. Ou até Lucro Real se custos dedutíveis forem muito altos e bem documentados.
3. Você tem (ou terá) funcionários?
Funcionários entram no cálculo do Fator R, ajudando a mantê-lo acima de 28%.
Se você tem ou planeja ter equipe (secretária, enfermeiro, assistente), fica mais fácil ficar no Anexo III do Simples.
Se você atende sozinho eternamente, Fator R fica dependente só do pró-labore — que tem limite de quanto você quer/pode retirar.
4. Seu planejamento de retiradas (pró-labore vs lucros)
Quer pró-labore alto (para maximizar INSS, pensando em aposentadoria): Simples pode ser melhor, pois pró-labore alto ajuda no Fator R.
Quer pró-labore baixo (para minimizar INSS e IR, maximizando distribuição de lucros isenta): Lucro Presumido pode ser melhor, pois você não precisa se preocupar com Fator R.
5. Sua tolerância à complexidade
Simples é objetivamente mais simples. Lucro Presumido exige mais controle, mais declarações, mais atenção a prazos.
Se você tem (ou pode ter) estrutura administrativa mínima ou escritório contábil especialista em médicos cuidando, não é problema.
Se você tenta fazer tudo sozinho, Simples pode ser melhor pela praticidade.
Simulações comparativas práticas
Caso 1: Clínico geral, consultório pequeno
Perfil: Faturamento: R$ 18 mil/mês (R$ 216 mil/ano) Custos: R$ 3 mil/mês Pró-labore planejado: R$ 5 mil/mês Sem funcionários
Simples Nacional (Anexo III): Fator R: (R$ 60 mil ÷ R$ 216 mil) = 27,7% → QUASE lá, mas abaixo de 28% Cai no Anexo V (péssimo) Alíquota média: 16% Impostos anuais: R$ 34.560
Ajustando pró-labore para R$ 6 mil: Fator R: (R$ 72 mil ÷ R$ 216 mil) = 33,3% → Anexo III Alíquota média: 7,5% Impostos anuais: R$ 16.200
Lucro Presumido: Alíquota: 13,33% Impostos anuais: R$ 28.792
Melhor opção: Simples Anexo III (com pró-labore ajustado) economiza R$ 12.592/ano.
Caso 2: Dermatologista, consultório estruturado
Perfil: Faturamento: R$ 55 mil/mês (R$ 660 mil/ano) Custos: R$ 12 mil/mês 2 funcionários (R$ 6 mil/mês total) Pró-labore: R$ 8 mil/mês
Simples Nacional (Anexo III): Fator R: (R$ 168 mil ÷ R$ 660 mil) = 25,4% → Abaixo de 28% Anexo V Alíquota média: 19% Impostos anuais: R$ 125.400
Lucro Presumido: Alíquota: 13,33% Impostos anuais: R$ 87.978
Melhor opção: Lucro Presumido economiza R$ 37.422/ano.
Caso 3: Cirurgião plástico, faturamento alto
Perfil: Faturamento: R$ 120 mil/mês (R$ 1,44 milhão/ano) Custos: R$ 25 mil/mês 3 funcionários (R$ 12 mil/mês) Pró-labore: R$ 10 mil/mês
Simples Nacional (Anexo III): Fator R: (R$ 264 mil ÷ R$ 1,44 mi) = 18,3% → Anexo V Alíquota média: 22% Impostos anuais: R$ 316.800
Lucro Presumido: Alíquota: 13,33% Impostos anuais: R$ 191.952
Melhor opção: Lucro Presumido economiza R$ 124.848/ano.
E o Lucro Real? Quando considerar
Lucro Real tributa sobre o lucro efetivo (receitas menos despesas dedutíveis reais).
Quando considerar:
Margem de lucro real muito baixa (abaixo de 20%)
Custos operacionais altíssimos e bem documentados
Prejuízo em alguns períodos (pode compensar no Lucro Real)
Clínicas grandes, hospitais day clinic
Para médicos individuais ou consultórios pequenos, raramente compensa — a complexidade contábil é enorme e os custos administrativos também.
Mas se você está estruturando clínica de grande porte, vale simular.
Como tomar a decisão (checklist prático)
Passo 1: Levante seus números reais (ou projetados realistas)
Faturamento mensal médio
Custos operacionais mensais
Quantidade de funcionários (folha salarial)
Pró-labore que você pretende ter
Passo 2: Calcule seu Fator R (se considerar Simples) Fator R = (Pró-labore anual + folha funcionários) ÷ Faturamento anual
Se ≥ 28%: Simples Anexo III é opção Se < 28%: Simples Anexo V (provavelmente ruim)
Passo 3: Solicite simulação comparativa com contador especializado
Ele deve te mostrar:
Quanto você pagaria no Simples (Anexo III e V)
Quanto você pagaria no Lucro Presumido
Quanto você pagaria no Lucro Real (se aplicável)
Com valores exatos, mês a mês, considerando todas as variáveis.
Passo 4: Considere fatores não financeiros
Você quer simplicidade ou aceita complexidade para economizar?
Sua estrutura administrativa suporta Lucro Presumido?
Você tem (ou pode ter) contador especializado cuidando?
Passo 5: Tome decisão informada
Não baseada em "achismo" ou "o que meu colega faz", mas em dados concretos da sua realidade.
Passo 6: Reavalie anualmente
Sua situação muda: faturamento aumenta, você contrata equipe, seus custos crescem.
O regime ideal hoje pode não ser o ideal daqui a 2 anos.
Todo outubro/novembro, faça nova simulação. Se outro regime ficou melhor, faça opção de mudança para janeiro seguinte.
Os erros mais comuns (e mais caros)
Erro 1: Escolher Simples "porque é mais fácil" sem simular Lucro Presumido.
Custo: R$ 20 mil a R$ 50 mil/ano desperdiçados.
Erro 2: Ficar no Simples Anexo V por não planejar Fator R.
Custo: R$ 30 mil a R$ 80 mil/ano desperdiçados.
Erro 3: Nunca revisar o regime escolhido, ficando anos no mesmo mesmo quando não é mais vantajoso.
Custo acumulado: R$ 100 mil a R$ 300 mil em 5 anos.
Erro 4: Trocar de regime baseado em "dica de colega" sem analisar sua situação específica.
Custo: Imprevisível, mas pode ser desastroso.
Erro 5: Não ter assessoria contábil especializada em medicina para fazer esses cálculos corretamente.
Custo: Todos os erros acima acontecem simultaneamente.
A resposta que você esperava (e que não existe)
Você provavelmente queria que este artigo terminasse com: "Use regime X, é sempre melhor."
Mas seria mentira.
Simples Nacional é melhor quando:
Faturamento baixo a médio (até R$ 40 mil/mês)
Você consegue manter Fator R ≥ 28%
Quer simplicidade operacional
Está começando e faturamento vai crescer gradualmente
Lucro Presumido é melhor quando:
Faturamento médio a alto (acima de R$ 50 mil/mês)
Margem de lucro muito alta
Não consegue/quer manter Fator R acima de 28%
Quer maximizar distribuição de lucros isenta
Tem estrutura (ou contador) para lidar com complexidade
A única resposta honesta: depende da sua situação específica.
E a única forma de saber com certeza é fazer simulação comparativa com números reais.
Contabilidade para médicos especializada faz isso como parte natural do processo — não deveria ser opcional, deveria ser obrigatório.
Porque escolher regime tributário é escolher quanto do seu dinheiro fica com você e quanto vai para o governo.
E você não deveria deixar essa escolha ao acaso.




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